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2020

Bartolomeu Dias Building

Lisbon – Portugal

 

Authors

Aurora Arquitectos / site

pt

Este é um projecto em contra-corrente com um tempo onde a cidade tem sido gradualmente esvaziada dos seus habitantes por pressão do turismo e da especulação imobiliária. É um projecto de resistência, que parte do desejo de uma família em manter-se no seu bairro, no local onde estabeleceu as suas relações de proximidade. Este desejo de permanência no bairro, guiou também a forma como foi estabelecido o projecto.

Um lote de pequena dimensão tem que responder às necessidades programáticas actuais, mantendo-se a integração do edifício no contexto urbano, a cidade e a rua em que se insere. A intervenção resultante tem, portanto, uma presença relativamente anónima, e só a um olhar mais atento se revela a sobreposição, da ampliação sobre o edifício original.

Ao longo da cidade existem ainda pequenos lotes, com construção relativamente modesta de tipologia uni ou plurifamiliar e que pela sua pequena dimensão estão menos sujeitos à pressão imobiliária, podendo assim ser o palco para operações como esta. A adaptação destas estruturas às necessidades actuais – conforto, resistência, segurança – exige invenção e tolerância programática, exige dos proprietários abertura a soluções não convencionais na forma de habitar.

Assim, este é um edifício exemplificativo de como a iniciativa privada ao resolver as suas necessidades próprias de habitação, pode representar um importante contributo para uma reabilitação urbana que mantenha a cidade com a sua pluralidade e identidade, mantendo um equilíbrio com as grandes operações urbanísticas, necessariamente mais cegas ao contexto social em que se inserem.

Um edifício, de construção modesta, devoluto, que foi adquirido por uma família com a intenção de fazer aqui a sua nova casa.

A fachada principal dá para a Rua Bartolomeu Dias, um importante eixo, paralelo à frente ribeirinha, que nasce em Alcântara e atravessa a monumental zona de Belém, terminando na Rua de Pedrouços. É uma rua movimentada de uso maioritariamente habitacional, com alguma ocupação de serviços e comércio ao nível térreo. Atrás, encontra-se o Beco da Ré, uma ruela estreita, com edifícios de traçado irregular e uma utilização apenas pedonal. Pelo seu carácter de maior privacidade, os habitantes apropriam-se da rua, com cadeiras e roupa a secar, fazendo lembrar o ambiente próprio das aldeias. Destaca-se assim a diferença de escala e vivências entre a fachada principal e tardoz, identificando-se como um aspecto singular para o desenvolvimento do projecto.

Com uma área de lote de 60 m2, o imóvel de 2 pisos, encontra-se em avançado estado de degradação, sendo inevitável a demolição integral do seu interior. Em resposta ao programa pedido, de conversão numa habitação permanente para um agregado familiar de 5 pessoas, tornou-se vital a ampliação para mais 2 pisos, alinhando com a altura de edificado predominante na envolvente. Com o projecto, opta-se por evidenciar o contraste entre a ampliação e o edifício original. Os dois novos pisos adoptam uma expressão arquitectónica contemporânea, própria de técnicas construtivas actuais, que entra em diálogo com a fachada existente. Assume-se assim, que a obra actual é realizada num tempo distinto do edifício original, e que na sua diferença se funda a identidade do novo edifício.

Na organização interior, a distribuição dos espaços é disposta do nível privado para o público, esta inversão é motivada pela vontade de atribuir aos espaços sociais a zona mais alta e com melhor vista sobre o rio Tejo e a cidade. Privilegia-se as áreas de estar, de natureza convivial e familiar, em detrimento dos quartos que têm um uso mais pontual. Assim, os quartos organizam-se nos dois primeiros pisos, encontrando-se as zonas sociais nos últimos três pisos. Desta forma, no percurso interior, a partir da entrada, os espaços começam por ser muito compartimentados, e progressivamente vão-se tornando mais amplos e abertos, culminando no terraço exterior, orientado a sul, inserido na cobertura de duas águas.

Neste percurso também é crescente, de piso para piso, a relação com a luz de sul e vista para o rio. A disposição da escada, ao longo dos vários pisos, vai sendo alterada de acordo com a organização dos espaços e respectivas características, estabelecendo-se relações visuais de duplo ou triplo pé direito com os diferentes pisos.

Na fachada principal é reabilitado o azulejo da fachada existente e mantém-se o verde “de Lisboa” para as portas e grelha ao nível do rés-do-chão. Os novos vãos, do piso 3, são desenhados de acordo com o alinhamento com os vãos existentes. A tardoz é criada uma nova composição de vãos, que gradualmente aumentam o seu tamanho, obtendo-se uma relação mais franca com o exterior nos pisos superiores. A varanda projectada e a janela baptizada de “olho verde”, em Pedra Verde Viana, como excepção numa fachada em que predomina a regularidade, a simetria e o diálogo com a envolvente.

en

This is an upstream project in a time when the city has been gradually emptied from its inhabitants under the pressure of tourism and real estate speculation. In this scenario, this is a project of resistance since it grows from the desire of a family to remain in its own neighbourhood, place for their closer relations. This will guided even the way the project was shaped.

A really small lot has to answer to the contemporary programmatic needs, not losing the relation of its building with the urban context, with the city and the street where it is placed. This continuity with the context can make the building seems quite anonymous, while a second glance gives the possibility to recognize the stratification of in the intervention: the overlay of the ampliation on the top of the original building.

Small and modest lots of uni or pluri-familiar typology still exist among the city. Their dimension makes them less appealing for the estate and therefore free to be stage for architectural operation as this.

Adapting the building to the new, contemporary needs -comfort, resistance and safety- requires strong programmatic creativity and adaptability, it requires the openness from the owner to experiment non common way of living. This building is thus an explicative example of how, the private initiative resolving its housing needs, can represent an important contribution for urban rehabilitation, maintaining the city’s plurality and identity, and so keeping the difficult balance with strong urban operations, surely less sensitive to the social context where they operate.

This is a modest and vacant building, bought by a family with the wish of rising their own home here.

The main façade overlooks Bartolomeu Dias street, an important axe running parallel to the riverside, that starts from Alcantara, crosses Belem’s monumental area and ends in Pedrouços street. This is a lively street, mostly residential, with some ground floor services and shops. The rear elevation, instead, overlooks Beco da Ré, a narrow and pedestrian street, surrounded by irregular blueprinted buildings. For its higher level of privacy, the inhabitants appropriate this street with chairs and drying clothes hanging outside, bringing in mind the typical atmosphere of the countryside villages. The difference of scale and use between the main road and the rear one stands out, becoming a driving line in the design process.

The building, 60 meters squares and two floors, is highly degraded, making the demolition of the whole inside mandatory. In order to respond to the programmatic needs, specifically a permanent residence for a 5 members family, it was strictly needed to make a two floors ampliation, aligning the building volume with the dominant height of the built surrounding. The project aims at underling the contrast between the existing and the new. The new floors, indeed, uses a contemporary architectural expression, result of the new constructive technology, and creates dialogue with the existing ones. Therefore, the tension between two different construction times becomes the main identity trace for the building.

The internal spatial organization is reversed, going from more private spaces at the bottom floors to social ones at the top, in order to take advantage from the better view on the Tejo river. The living area is privileged, at the expense of the rooms, that has a more punctual use. So, the rooms are organized in the first two floors, and the living areas are organized in the last three ones. In this way, starting from the entrance and following the internal circulation of the staircase, the spaces are firstly more compartmentalized, then gradually becoming bigger and more open, culminating with the terrace, that is south-oriented and inserted in the two-pitched roof.

Along this same path, the relation with southern light and the river sight is a crescendo too. The position of the stairs in the different floors changes accordingly to the floor spatial organization needs, establishing double or triple height visual relation with the different floors.

In the main façade, at ground floor, the original tiles are restored and the typical “Lisbon green” is maintained in the doors and in the grids. The new openings are designed accordingly to the existing ones. The rear elevation is differently and autonomously composed, the openings gradually becomes wider, obtaining a better relation to the outside in the upper floors. The projecting veranda and the verde viana stone window, baptized “the green eye”, are the only exception in an elevation where the regularity, symmetry and relation with the context is the predominant character.